Uma equipe internacional de cientistas encontrou um extenso reservatório de água surpreendentemente doce sob o fundo do mar, a dezenas de quilômetros da costa de Nantucket, nos Estados Unidos. A descoberta, resultado de uma expedição de perfuração oceânica, desafia entendimentos convencionais sobre a formação de aquíferos e abre caminho para novas investigações sobre a história geológica da região e a potencial disponibilidade de recursos hídricos alternativos.
A expedição, batizada de New England Shelf Hydrogeology, integra o Programa Internacional de Perfuração Oceânica (IODP) e foi operada pelo Consórcio Europeu para Pesquisa em Perfuração Oceânica (ECORD). Durante 74 dias no mar, uma equipe de 41 pesquisadores de diversas nacionalidades coletou 718 testemunhos de sedimento, totalizando mais de 871 metros de amostras. A operação utilizou um liftboat adaptado com uma sonda de perfuração para extrair cerca de 50 mil litros de água de diferentes profundidades.
A salinidade da água, considerada "freshened" (com teor de sal reduzido), aproximou-se surpreendentemente dos níveis considerados próprios para consumo humano. Esta característica é incomum, pois os sedimentos abaixo do assoalho oceânico costumam apresentar salinidade semelhante à da água do mar que os recobre. O sucesso na coleta de grandes volumes desta água, sem causar o colapso dos poços de pesquisa, representou um dos maiores desafios logísticos da missão, exigindo otimização estratégica do posicionamento do equipamento e da vazão das bombas.
As amostras coletadas serão submetidas a uma bateria de análises em laboratórios especializados. A professora Rebecca Robinson, da Universidade de Rhode Island e uma das principais cientistas da expedição, focará seus estudos na ciclagem do nitrogênio presente na água. A análise da composição isotópica desse elemento, realizada com um espectrômetro de razão isotópica de massa, pode revelar tipos de processamento microbiano e traçar a história da água em seu caminho subterrâneo.
A datação do reservatório será realizada por outros especialistas através de isótopos radioativos, como carbono-14 e hélio-4. Estas análises são fundamentais para determinar há quanto tempo a água está isolada sob a plataforma continental e entender os processos paleoclimáticos que permitiram seu acúmulo.
A equipe completa de pesquisadores, que inclui ainda os professores Brandon Dugan, da Colorado School of Mines, e Karen Johannesson, da Universidade de Massachusetts Boston, planeja se reunir no repositório de amostras da Universidade de Bremen, na Alemanha, no início de 2026. O objetivo é examinar em detalhes os testemunhos coletados, integrar os dados e produzir os primeiros relatórios preliminares sobre as descobertas. Após um período de moratória de um ano, todos os dados da expedição terão acesso livre e as amostras ficarão arquivadas e disponíveis para a comunidade científica global, fomentando novas pesquisas.